Ana Paula Arósio nasceu a 16 de Julho de 1975 em São Paulo. Começou a ser modelo quando tinha 11 anos na Agência Stilo, ligada à Agência Galharufas, foi coordenada pelo fotógrafo Paulo Sadao até estrear na televisão.
No cinema, estreou numa co-produção entre o Brasil e a Itália chamada Per Sempre, ao lado do italiano Ben Gazzara.
Em 3 de Novembro de 1996, quando tinha 21 anos, Ana assistiu ao suicídio do noivo, o empresário Luiz Carlos Tjurs que se matou aos 29 anos por ciúmes, com um tiro na boca.
"‘Mad Maria’ ainda não disse a que veio. Mas certamente não faz jus às referências ao filme ‘Apocalipse Now’, de Francis Ford Coppola, ou a ‘Coração das Trevas’, livro de Joseph Conrad, clássicas alusões aos embates da ‘civilização’ em terrenos ‘selvagens’, que teriam inspirado a produção da Globo.
Na linhagem cinematográfica, a série talvez pudesse se aproximar de ‘Fitzcarraldo’ (1981), de Werner Herzog, se tivesse optado por abrir com o espetáculo do piano se espatifando nas corredeiras selvagens.
O tema é bom. A história da construção da ferrovia Madeira-Mamoré, como sugere o livro ‘Trem-Fantasma’, de Foot Hardman, recentemente reeditado em versão ampliada, é adequada para pensar a selva como domínio do medo -do inusitado, do incontrolável, geografia especialmente sugestiva para representar o encontro com o desconhecido.
O empreendimento insano de construir, na virada do século 20, uma ferrovia que domasse a mata, marcando a superioridade incontestável da tecnologia, expressa a confluência de uma prepotência humana predatória e um fascínio nativo com as maravilhas da ciência moderna. A vocação modernista de conectar lugares distantes, de vencer os limites do tempo ganha, no caso, contornos surreais.
Cem anos depois da aventura, o desafio permanece atual, em outros termos. A selva mantém seu apelo simbólico. Hoje, inúmeras experiências de crescimento sustentado propõem a convivência orgânica com a floresta como novo parâmetro de vida.
Mas, como sugere a experiência dos que já tentaram, a floresta não é fácil de capturar em imagens. A selva amazônica permanece, em larga medida, intransponível.
Diante da dificuldade, o apelo da floresta se dilui na minissérie. Assim como as lindas fotos do Rio de Janeiro antigo ou da própria construção da estrada que ilustram a abertura e marcam as passagens da narrativa.
Os recursos técnicos e de talento envolvidos, que não são poucos, das tomadas em plano-seqüência, os efeitos especiais empregados se perdem em uma narrativa fragmentada e sem força.
A epopéia que foi a construção da ferrovia fica reduzida a mero pano de fundo de intrigas palacianas, enfrentamento étnico de homens violentos e amores melosos.
A insistente melancolia da trilha sonora sobreposta evita os significativos sons e silêncios da floresta. A cenografia limpinha não convence. O excesso de goma em figurinos que não amassam é artificial. Insetos, quinino e malária não apareceram na estréia. A selva domesticada mais parece um jardim de delícias.
A superprodução começou morna. O romance água-com-açúcar falou mais alto. O tom do primeiro capítulo, que privilegiou a apresentação de pares românticos, cônjuges e amantes, é sintomático.
O médico de Fábio Assunção, um Finnegan, como os outros estrangeiros, sem sotaque, borboleteia, como sua cara-metade, a delicada senhora Consuelo de Ana Paula Arósio, a caprichosa dona do piano.
No Rio, alguns de nossos grandes atores interpretam homens poderosos, ministros, presidentes, comandantes de uma política do tititi, com repercussões no trabalho dos engenheiros e doutores americanos que se aventuraram na mata a comandar grupos de trabalhadores imigrantes do mundo inteiro.
O que importa é aquela convencional troca de olhares, amor à primeira vista, que sinaliza o início de algo. ‘Ele vai voltar’, repetiu várias vezes a personagem de Priscila Fantin, depois de ser comida pelos poderosos olhos do sr. J. de Castro, vivido por Antônio Fagundes.
As minisséries de época, com inspiração pseudodidática na história do Brasil, vêm se tornando uma regra. Referências a heróis e vilões nacionais legitimam folhetins sem grandes pretensões dramatúrgicas ou estéticas.
O resultado é um aviltamento da história, reduzida à função de ilustrar caprichos e galanteios fúteis. A história torna-se recurso de retórica, instrumento banal de construção de verossimilhança, desprovida da carne e do sangue que define os rumos do mundo, em articulações muito específicas, a cada momento e lugar.
Na selva amazônica do Projac, não estamos longe das dunas de Agadir. O presidente Hermes da Fonseca e o esclarecido dr. Rui Barbosa que o digam.
Esther Hamburger é antropóloga e professora da ECA-USP""Que Maria Fumaça, que nada. Mad Maria. Ou, em bom português, Maria Louca. O nome não soa muito apropriado para uma locomotiva, mas é perfeito. Afinal, tudo não passou de uma grande loucura mesmo. Se, ainda hoje, a coisa toda parece uma empreitada insana, imagine 100 anos atrás, quando não havia vacinas, garrafas de água mineral ou telefone celular. ‘Mad Maria’ é o título da nova minissérie da Rede Globo, que estréia na próxima terça-feira. Com texto de Benedito Ruy Barbosa, baseado no romance homônimo de Márcio Souza, conta a história da construção, no início do Século 20, da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, um gigante de 366 quilômetros de extensão instalado em plena selva amazônica. Maluquice das boas, em que se gastaram rios de dinheiro e na qual cerca de seis mil homens morreram no intervalo de cinco anos - praticamente três mortes por dia. Não foi à toa que a obra ficou conhecida como Ferrovia do Diabo.
‘Mad Maria’ é o que se costuma chamar, no jargão televisivo, de superprodução. Talvez seja a superprodução das superproduções. Com elenco estelar, no qual despontam Ana Paula Arósio, Fábio Assunção, Tony Ramos e Antônio Fagundes, a minissérie consumiu dois meses de gravações em Rondônia. Durante vinte e cinco dias, cerca de 400 pessoas trabalharam numa locação no meio da Floresta Amazônica, a quatro quilômetros de distância da cidadezinha mais próxima, Abunã. Nunca, antes, a Globo havia ido tão longe no interior do Brasil e com uma estrutura tão caprichada.
As gravações ainda continuam no Rio de Janeiro - em estúdio, em duas cidades cenográficas e em lugares históricos, como o Palácio do Catete, sede do governo federal em 1911, ano em que a história se passa. Quando os 35 capítulos de ‘Mad Maria’ chegarem ao fim, no dia 25 de março, terão custado aos cofres da emissora sete milhões de reais - média de 200 mil reais por capítulo. O programa vem sendo anunciado como o prato principal das comemorações dos 40 anos da Globo.
Para entender a magnitude de uma produção como ‘Mad Maria’ é preciso, antes, conhecer a história da construção, entre 1907 e 1912, da Madeira-Mamoré. A ferrovia era um projeto antigo do Brasil e, principalmente, da Bolívia. Havia décadas, o país vizinho sonhava com um acesso ao Oceano Atlântico - por intermédio dos rios das Amazônia brasileira - para escoar sua produção de látex para os fabricantes de borracha mundo afora. Mas havia um empecilho para conquistar esse caminho até o mar. A navegação pelo Rio Madeira era - e continua sendo - praticamente impossível num trecho levemente encachoeirado e cheio de corredeiras que se estende por 350 quilômetros.
Tudo por causa do Acre
Durante muito tempo, brasileiros e bolivianos até tentaram fazer, de barco, o percurso dos rios Mamoré, Madeira e Amazonas em direção ao Atlântico. Mas os naufrágios, em que se perdiam vidas e cargas preciosas de látex, eram freqüentes. Daí a necessidade de uma ferrovia que ligasse o Rio Mamoré ao Rio Madeira, deixando de fora do trajeto a parte perigosa do Madeira.
Na linhagem cinematográfica, a série talvez pudesse se aproximar de ‘Fitzcarraldo’ (1981), de Werner Herzog, se tivesse optado por abrir com o espetáculo do piano se espatifando nas corredeiras selvagens.
O tema é bom. A história da construção da ferrovia Madeira-Mamoré, como sugere o livro ‘Trem-Fantasma’, de Foot Hardman, recentemente reeditado em versão ampliada, é adequada para pensar a selva como domínio do medo -do inusitado, do incontrolável, geografia especialmente sugestiva para representar o encontro com o desconhecido.
O empreendimento insano de construir, na virada do século 20, uma ferrovia que domasse a mata, marcando a superioridade incontestável da tecnologia, expressa a confluência de uma prepotência humana predatória e um fascínio nativo com as maravilhas da ciência moderna. A vocação modernista de conectar lugares distantes, de vencer os limites do tempo ganha, no caso, contornos surreais.
Cem anos depois da aventura, o desafio permanece atual, em outros termos. A selva mantém seu apelo simbólico. Hoje, inúmeras experiências de crescimento sustentado propõem a convivência orgânica com a floresta como novo parâmetro de vida.
Mas, como sugere a experiência dos que já tentaram, a floresta não é fácil de capturar em imagens. A selva amazônica permanece, em larga medida, intransponível.
Diante da dificuldade, o apelo da floresta se dilui na minissérie. Assim como as lindas fotos do Rio de Janeiro antigo ou da própria construção da estrada que ilustram a abertura e marcam as passagens da narrativa.
Os recursos técnicos e de talento envolvidos, que não são poucos, das tomadas em plano-seqüência, os efeitos especiais empregados se perdem em uma narrativa fragmentada e sem força.
A epopéia que foi a construção da ferrovia fica reduzida a mero pano de fundo de intrigas palacianas, enfrentamento étnico de homens violentos e amores melosos.
A insistente melancolia da trilha sonora sobreposta evita os significativos sons e silêncios da floresta. A cenografia limpinha não convence. O excesso de goma em figurinos que não amassam é artificial. Insetos, quinino e malária não apareceram na estréia. A selva domesticada mais parece um jardim de delícias.
A superprodução começou morna. O romance água-com-açúcar falou mais alto. O tom do primeiro capítulo, que privilegiou a apresentação de pares românticos, cônjuges e amantes, é sintomático.
O médico de Fábio Assunção, um Finnegan, como os outros estrangeiros, sem sotaque, borboleteia, como sua cara-metade, a delicada senhora Consuelo de Ana Paula Arósio, a caprichosa dona do piano.
No Rio, alguns de nossos grandes atores interpretam homens poderosos, ministros, presidentes, comandantes de uma política do tititi, com repercussões no trabalho dos engenheiros e doutores americanos que se aventuraram na mata a comandar grupos de trabalhadores imigrantes do mundo inteiro.
O que importa é aquela convencional troca de olhares, amor à primeira vista, que sinaliza o início de algo. ‘Ele vai voltar’, repetiu várias vezes a personagem de Priscila Fantin, depois de ser comida pelos poderosos olhos do sr. J. de Castro, vivido por Antônio Fagundes.
As minisséries de época, com inspiração pseudodidática na história do Brasil, vêm se tornando uma regra. Referências a heróis e vilões nacionais legitimam folhetins sem grandes pretensões dramatúrgicas ou estéticas.
O resultado é um aviltamento da história, reduzida à função de ilustrar caprichos e galanteios fúteis. A história torna-se recurso de retórica, instrumento banal de construção de verossimilhança, desprovida da carne e do sangue que define os rumos do mundo, em articulações muito específicas, a cada momento e lugar.
Na selva amazônica do Projac, não estamos longe das dunas de Agadir. O presidente Hermes da Fonseca e o esclarecido dr. Rui Barbosa que o digam.
Esther Hamburger é antropóloga e professora da ECA-USP""Que Maria Fumaça, que nada. Mad Maria. Ou, em bom português, Maria Louca. O nome não soa muito apropriado para uma locomotiva, mas é perfeito. Afinal, tudo não passou de uma grande loucura mesmo. Se, ainda hoje, a coisa toda parece uma empreitada insana, imagine 100 anos atrás, quando não havia vacinas, garrafas de água mineral ou telefone celular. ‘Mad Maria’ é o título da nova minissérie da Rede Globo, que estréia na próxima terça-feira. Com texto de Benedito Ruy Barbosa, baseado no romance homônimo de Márcio Souza, conta a história da construção, no início do Século 20, da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, um gigante de 366 quilômetros de extensão instalado em plena selva amazônica. Maluquice das boas, em que se gastaram rios de dinheiro e na qual cerca de seis mil homens morreram no intervalo de cinco anos - praticamente três mortes por dia. Não foi à toa que a obra ficou conhecida como Ferrovia do Diabo.
‘Mad Maria’ é o que se costuma chamar, no jargão televisivo, de superprodução. Talvez seja a superprodução das superproduções. Com elenco estelar, no qual despontam Ana Paula Arósio, Fábio Assunção, Tony Ramos e Antônio Fagundes, a minissérie consumiu dois meses de gravações em Rondônia. Durante vinte e cinco dias, cerca de 400 pessoas trabalharam numa locação no meio da Floresta Amazônica, a quatro quilômetros de distância da cidadezinha mais próxima, Abunã. Nunca, antes, a Globo havia ido tão longe no interior do Brasil e com uma estrutura tão caprichada.
As gravações ainda continuam no Rio de Janeiro - em estúdio, em duas cidades cenográficas e em lugares históricos, como o Palácio do Catete, sede do governo federal em 1911, ano em que a história se passa. Quando os 35 capítulos de ‘Mad Maria’ chegarem ao fim, no dia 25 de março, terão custado aos cofres da emissora sete milhões de reais - média de 200 mil reais por capítulo. O programa vem sendo anunciado como o prato principal das comemorações dos 40 anos da Globo.
Para entender a magnitude de uma produção como ‘Mad Maria’ é preciso, antes, conhecer a história da construção, entre 1907 e 1912, da Madeira-Mamoré. A ferrovia era um projeto antigo do Brasil e, principalmente, da Bolívia. Havia décadas, o país vizinho sonhava com um acesso ao Oceano Atlântico - por intermédio dos rios das Amazônia brasileira - para escoar sua produção de látex para os fabricantes de borracha mundo afora. Mas havia um empecilho para conquistar esse caminho até o mar. A navegação pelo Rio Madeira era - e continua sendo - praticamente impossível num trecho levemente encachoeirado e cheio de corredeiras que se estende por 350 quilômetros.
Tudo por causa do Acre
Durante muito tempo, brasileiros e bolivianos até tentaram fazer, de barco, o percurso dos rios Mamoré, Madeira e Amazonas em direção ao Atlântico. Mas os naufrágios, em que se perdiam vidas e cargas preciosas de látex, eram freqüentes. Daí a necessidade de uma ferrovia que ligasse o Rio Mamoré ao Rio Madeira, deixando de fora do trajeto a parte perigosa do Madeira.